Diretrizes de depressão em adolescentes orientam rastreio universal

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A nova diretriz em duas partes, publicada on-line em 26 de fevereiro no periódico Pediatrics, foi desenvolvida pela American Academy of Pediatrics, pela Canadian Pediatric Society, e associações psiquiátricas dos dois países.

“Sabemos que mais de 50% dos casos de depressão no adolescente não são identificados, e ainda menos casos são tratados. Uma vez que pediatras e profissionais da atenção primária estão na linha de frente, atendendo essas crianças, seja para uma consulta de rotina, para a escola, um acampamento, esportes físicos, ou apenas para doenças comuns, eles estão em uma posição muito boa para identificar a depressão, bem como para controlá-la e tratá-la”, disse ao Medscape a Dra. Rachel Zuckerbrot, autora principal das Guidelines for Adolescent Depression in Primary Care: (GLAD-PC), Parte I. A Dra. Rachel é professora-associada de psiquiatria clínica, no Columbia University Medical Center, em Nova York.

A Dra. Nerissa Bauer, membro do grupo diretor das diretrizes, e membro do comitê executivo da seção de desenvolvimento e pediatria comportamental da American Academy of Pediatrics concorda, enfatizando que existe uma necessidade urgente de que médicos da atenção primária se envolvam na identificação e no tratamento de adolescentes com depressão.

“Na sociedade em que vivemos, os adolescentes têm probabilidade muito maior de apresentar depressão, com as redes sociais e o bullying digital, e o potencial de estarem expostos ao trauma todos os dias em termos de violência social, violência armada e violência na comunidade”, disse ao Medscape a Dra. Nerissa, professora-associada de pediatria na Indiana University School of Medicine, em Indianápolis.

“Definitivamente, a depressão é um tópico com o qual os médicos da atenção primária precisam estar familiarizados, e sobre o qual devem conversar com sensibilidade e da maneira oportuna com nossas famílias. É apenas parte da promoção do bem-estar ideal dos nossos pacientes e pelo menos temos a oportunidade de questioná-los sobre isso”, acrescentou.

Primeiro passo

A recomendação para rastreamento universal se afasta das diretrizes anteriores, publicadas há uma década, e é o primeiro passo em um protocolo maior, que deve ser seguido quando há suspeita de transtorno depressivo.

Como era verdadeiro para as diretrizes de 2007, os médicos precisam avaliar adolescentes para fatores de risco que aumentam a probabilidade de depressão, incluindo história familiar, uso de substâncias e adversidade psicossocial. Os profissionais da atenção primária, incluindo os pediatras, também devem procurar comentários da família ou dos cuidadores do adolescente em entrevistas diretas com eles.

“Eu acho que envolver as famílias é algo que sempre apoiamos”, disse a Dra. Rachel. “Então, ao mesmo tempo em que é realmente importante para os pediatras se lembrarem de entrevistar o paciente sozinho, também é importante que eles tragam a família de volta e também a envolvam”.

As novas recomendações também colocam uma nova ênfase no tratamento colaborativo para a depressão na adolescência porque “os pacientes realmente se beneficiam” quando a saúde mental e os pediatras trabalham juntos, continuou a Dra. Rachel.

Mais uma vez, a Dra. Nerissa concorda, observando que muitas clínicas agora dependem mais de outros profissionais, como assistentes-sociais e terapeutas de saúde mental. “As diretrizes realmente enfatizam a abordagem colaborativa e interdisciplinar para obter ajuda dos adolescentes em tempo hábil”, disse ela. A educação é fundamental, é claro, não só para o paciente, mas para as famílias, que precisam entender pelo que o adolescente está passando e para reconhecer quaisquer sinais de alerta de que ele pode estar com problemas e precisa de cuidados médicos.

Os objetivos de tratamento também devem ser estabelecidos e as expectativas definidas em termos de o quão bem um adolescente deve estar em casa e na escola. “Todo o tratamento deve incluir o estabelecimento de um plano de segurança”, acrescentam os autores das diretrizes. Este plano de segurança precisa incluir formas concretas de restringir qualquer meio que um adolescente possa ter de cometer suicídio, e como a família pode se comunicar rapidamente com os profissionais caso a situação do adolescente agravar ou caso ele se torne ativamente suicida ou perigoso para os outros.

Início do tratamento

De acordo com as novas diretrizes, o início do tratamento depende da gravidade da depressão. Se o adolescente tiver uma depressão leve, os médicos devem considerar um período de “suporte e monitoramento ativos” antes de iniciar o tratamento baseado em evidências com medicação e psicoterapia. Somente se os sintomas persistirem o tratamento deve ser iniciado.

Durante a última década, as evidências que apoiam as opções de antidepressivos se solidificaram e as recomendações baseadas em evidências estão bem definidas na parte 2 das novas diretrizes.

Além disso, a terapia cognitivo-comportamental e a psicoterapia interpessoal foram adaptadas para adolescentes com depressão, e podem ser eficazes para ajudar a tratar transtornos depressivos maiores. Idealmente, diz a Dra. Nerissa, as medicações e a psicoterapia são usadas em conjunto, uma vez que as psicoterapias ajudam os adolescentes a desenvolver as habilidades cognitivas de que precisam para lidar com a depressão, se ela recorrer, e permitem que eles eventualmente interrompam completamente a medicação antidepressiva.

Para os adolescentes com depressão mais grave, ou caso haja uma condição coexistente, como abuso de substâncias, os autores sugerem que os médicos considerem consultar com um especialista em saúde mental. “Todos os pacientes pediátricos tratados com antidepressivos para qualquer indicação devem ser observados de perto para agravamento clínico, suicídio e mudanças incomuns no comportamento, especialmente durante os primeiros meses de um curso de terapia medicamentosa, ou em momentos de alterações de dose, seja de aumento ou de redução”, já alertou a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA anteriormente.

Assim, os médicos devem monitorizar os adolescentes para obter sinais de qualquer evento adverso ao tratá-los com terapia antidepressiva. Os médicos também precisam avaliar o quão bem os adolescentes estão respondendo ao tratamento, e reavaliá-los se não houver melhora após seis a oito semanas de tratamento.

“Apesar das diretrizes de 2007, há pediatras que acreditam que o padrão-ouro não é prescrever antidepressivos. Então acho importante que, com as diretrizes recém-revisadas, haja uma ênfase para os pediatras e os profissionais generalistas perceberem que a American Academy of Pediatricsos apoia, e que às vezes este pode ser o padrão-ouro”, enfatizou a Dra. Rachel.

 A Dra. Nerissa também apoia a ideia de que os médicos da atenção primária assumam uma responsabilidade maior pela depressão adolescente, desde que se sintam confortáveis fazendo isso.
 “Acho que, em geral, os clínicos têm toda a responsabilidade de identificar um adolescente que apresenta depressão e implementar um tratamento adequado, quer eles próprios façam isso ou encaminhem o adolescente, se não se sentem confortáveis”, reafirmou a Dra. Nerissa.  “Nós só queremos garantir que identifiquemos essas crianças ou adolescentes o mais cedo possível para obter os melhores resultados”, ressaltou ela.

A Dra. Rachel trabalha para CAP PCChild and Adolescent Psychiatry for Primary Care, atualmente um provedor regional para o Project TEACH no estado de Nova York. Ela também está no comitê diretor bem como como dá aulas no REACH Institute. Ela e outro autor da diretriz recebem direitos autorais por livro do Research Civic Institute. A Dra. Nerissa declarou não possuir conflitos de interesses relevantes.

 

 

Fonte: Medscape

https://portugues.medscape.com

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