Feliz 2019

Idosos com baixa escolaridade mostram depressão com sofrimento e prejuízo funcional

Idosos com baixa escolaridade apresentam alta prevalência de depressão de início tardio e de sintomas depressivos clinicamente significativos, mostra estudo feito com pessoas acima dos 75 anos moradoras de Caeté, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais. No artigo publicado na edição de janeiro de 2019 do periódico Journal of Affective Disorders, os autores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) alertaram para a necessidade de melhorar a formação médica, a fim de aumentar a suspeição e o reconhecimento dos sintomas, bem como de melhorar a forma de lidar com os quadros depressivos em idosos. A pesquisa transversal avaliou uma subamostra do estudo Pietà, pesquisa epidemiológica sobre envelhecimento cerebral feita em Caeté e coordenada pelo Dr. Paulo Caramelli, neurologista da UFMG.

No estudo publicado recentemente, também liderado pelo Dr. Paulo, o psiquiatra Dr. Filipi Leles e colaboradores avaliaram a presença de depressão de início tardio e de sintomas depressivos clinicamente significativos em 639 pessoas. Foram considerados com depressão de início tardio aqueles diagnosticados com depressão maior pela Mini International Neuropsychiatric Interview (MINI). Os idosos que apresentaram diagnóstico de depressão maior e/ou pontuação ≥ 6 na 15-item Geriatric Depression Scale (GDS-15) foram considerados como tendo sintomas depressivos clinicamente significativos. O Dr. Filipi falou ao Medscape sobre o estudo.

 A maioria dos participantes era do sexo feminino (64%) e a média de idade foi de 81,1 ± 5,2 anos, enquanto a escolaridade média foi de 2,6 ± 2,8 anos. Setenta idosos (11,1%) foram diagnosticados com depressão de início tardio e 146 (25,6%) apresentaram sintomas depressivos clinicamente significativos.

Fonte: Google imagens

Os idosos com depressão de início tardio e sintomas depressivos clinicamente significativos tinham pior qualidade de vida. Além disso, a análise de regressão logística revelou que a depressão de início tardio foi associada de modo independente a história de quedas/fratura, comprometimento cognitivo sem demência, excesso de medicamentos, ausência de hábito de leitura e pressão sistólica mais baixa. Para cada medicamento utilizado regularmente, houve aumento de 12,6% da probabilidade de depressão. De forma semelhante, para cada incremento de 1 mmHg na pressão arterial sistólica, houve redução de 1,5% da chance de depressão.

O Dr. Filipi explicou que, quando se diagnostica depressão maior em um adulto acima de 60 anos, pode-se chamar este quadro de depressão de início tardio, depressão no idoso ou depressão geriátrica. Por sua vez, o diagnóstico de sintomas depressivos clinicamente significativos é feito quando o paciente apresenta sintomas depressivos em número e/ou intensidade suficientes para gerar sofrimento e prejuízo funcional, exigindo, portanto, atenção especializada. Porém, os sintomas depressivos clinicamente significativos não correspondem a todos os critérios diagnósticos de um episódio depressivo maior.

O psiquiatra afirmou que durante sua pesquisa foram utilizadas duas ferramentas diagnósticas para o diagnóstico da depressão, com o objetivo de tornar a detecção dos sintomas depressivos o mais refinada possível. “Houve dois grupos que tiveram interseção: o grupo com pontuação maior ou igual a seis na GDS-15 e o grupo com diagnóstico de depressão pela MINI; na interseção estão os pacientes que corresponderam aos critérios dos dois instrumentos, ou seja, tiveram pontuação ≥ 6 na GDS e corresponderam aos critérios da MINI. A ideia desta abordagem metodológica foi garantir que todos os pacientes com sintomas depressivos significativos – com apenas alguns sintomas ou com sintomas que correspondessem aos critérios da MINI– fossem avaliados”, disse.

Os resultados da pesquisa levantam algumas questões para a prática clínica. Um dado que chamou a atenção dos autores, por exemplo, foi o fato de terem identificado que um percentual importante de pacientes deprimidos não estava em tratamento e, entre os que estavam sendo tratados, a maioria tomava antidepressivos tricíclicos anticolinérgicos, o que, segundo eles, não representa a melhor opção terapêutica para idosos.

“De acordo com as diretrizes de tratamento para idosos – critérios de Beers da Americans Geriatric Society –, deve-se evitar, de forma geral e sempre que possível, o uso de medicamentos com efeito anticolinérgico, dentre os quais estão os antidepressivos tricíclicos, que, em nossa amostra, foram os mais frequentemente utilizados no tratamento da depressão de início tardio. Segundo as diretrizes mais recentes de tratamento da depressão em idosos, deve-se dar preferência aos antidepressivos mais novos como os inibidores seletivos da receptação de serotonina ou aos inibidores da receptação de serotonina e da noradrenalina”, afirmou o Dr. Filipi.

Embora o estudo tenha revelado fatores associados à depressão nos idosos, como seu desenho foi transversal, não é possível estabelecer uma relação causal. Mas, para o autor, do ponto de vista clínico, a mensagem que fica é a necessidade de otimizar o tratamento da população geriátrica, especialmente dos idosos com mais de 75 anos. Para o médico, é importante “evitar ou tentar reduzir sempre que possível a polifarmácia; estimular a prevenção das quedas e fraturas – mudanças ambientais, fisioterapia, atividades físicas regulares – e estimular o controle adequado das comorbidades, como a hipertensão arterial (tendo o cuidado de não reduzir demais os níveis pressóricos), assim como promover o hábito de leitura. Além disso, a investigação sistemática dos quadros de comprometimento cognitivo sem demência pode auxiliar no diagnóstico precoce e apontar para a pesquisa ativa, nestes quadros de sintomas depressivos”.

O Dr. Filipi destacou ainda que, além do controle das comorbidades clínicas, principalmente dos fatores de risco cardiovasculares, e do diagnóstico e intervenção precoces em quadros com sintomas depressivos iniciais, o tratamento adequado de um quadro depressivo já instalado também representa um fator de prevenção, pois a terapêutica em tempo hábil e com medicamentos em doses adequadas pode prevenir as recorrências.

 

 

Fonte: Medscape

https://portugues.medscape.com

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