Balanço 2017

Um rim sob medida. Para transplantes sem rejeição

Pesquisadores americanos desenvolveram em animais, um rim reconstruído com células do receptor, para evitar o risco de rejeição.
É o sonho de qualquer cirurgião que realiza um transplante: ter à disposição um órgão fabricado com células do receptor a fim de evitar o risco de rejeição que provoca a falha de um número significativo de operações. Uma necessidade ainda mais premente uma vez que todo ano, só na França, mais de 10 mil pacientes à espera de transplante, não recebem o órgão esperado. O trabalho de Harald Ott e de sua equipe do centro de medicina regenerativa no Massachusetts General Hospital (Estados-Unidos) deixa a esperança de que um dia, este sonho poderá ser realizado. Na verdade, o cirurgião foi capaz de reconstruir um rim animal funcional ao utilizar células do receptor. Um protótipo promissor, apresentado na revista Nature Medicine, cujas capacidades devem, contudo, ainda ser melhoradas.

A técnica utilizada já tinha sida testada em órgãos simples como a traqueia, mas nunca em um órgão tão complexo como o rim. Em um primeiro momento, ela consiste em injetar um produto de lavagem em um rim de doador morto (um rato, no caso) para remover todas as células e manter apenas a estrutura de colágeno, vasos sanguíneos inclusos. O colágeno tem a particularidade de ser biologicamente inerte e, portanto, não desencadear nenhuma resposta imune. Em seguida, o Dr Ott recobriu a estrutura de novas células tronco oriundas do receptor, uma operação especialmente delicada, considerando a arquitetura sofisticada do rim. As células foram injetadas através da veia, da aorta e do ureter (o tubo pelo qual o rim expele a urina para a bexiga) ligados a um sistema que reproduzia a circulação sanguínea.

Três a cinco dias mais tarde, o conjunto, colocado em cultura num ambiente próximo do interior do corpo, operava a 20% da capacidade de um rim normal, produzindo uma urina rudimentar e filtrando os resíduos trazidos pela circulação sanguínea. Um teste bem sucedido in vitro, que os pesquisadores processaram em seguida in vivo, através do transplante do órgão por duas horas em um rato vivo. Mais uma vez, o rim reconstituído preencheu sua função, embora apenas 5%. No entanto, o Dr Ott continua confiante em sua capacidade de aumentar o desempenho dos enxertos, ao melhorar as condições de desenvolvimento das células tronco.

Inúmeros passos ainda precisam ser realizados antes de se obter um órgão implantável em um ser humano, lembra ao Figaro o Dr. Ott. O cirurgião espera renovar a experiência em animais maiores, como o porco, «dentro de cinco anos», antes de considerar in fine os testes clínicos em seres humanos. «Em um mundo ideal, se pudermos desenvolver rins humanos funcionais, esta técnica vai resolver o problema da escassez de órgão e tornar desnecessária a tomada de imunodepressores» para o resto da vida, espera Harald Ott.

Para o Prof. Edgardo Carosella, chefe do departamento de pesquisa em hemato-imunologia no hospital Saint-Louis, trata-se de um «belo trabalho». «Qualquer coisa que melhore a aceitação do enxerto e torne a tolerância definitiva é bem-vinda, quando sabemos da escassez de órgãos disponíveis. É uma pista dentre outras que vale a pena ser explorada», ele avalia.

Em outro estado americano, a equipe do Dr. Anthony Atala, diretor do Instituto de Medicina Regenerativa de Wake Forest na Carolina do Norte, desenvolve uma técnica muito semelhante, que usa em vez de uma estrutura recuperada em um doador, um molde desenvolvido a partir de uma impressora 3D. Além disso, as pesquisas sobre a melhoria da tolerância em pacientes enxertados têm conhecido avanços recentes.

Fonte: Le Figaro

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